Dia Mundial do Livro com indicações do editor!

Para comemorar o Dia Mundial do Livro, o diretor editorial da Estação Liberdade analisou alguns pontos altos de seu trabalho nesses 30 anos de editora e criou uma lista com mais de vinte títulos do catálogo para enfrentarmos a quarentena juntos. 

Confira a seleção pessoal do editor em meio ao catálogo da editora para o Dia Mundial do Livro.




Casa das belas adormecidas, A
Yasunari Kawabata

Romance breve e intenso sobre o desejo na idade avançada. Um erotismo sutil à flor da pele em pano de fundo de contemplação da beleza. Modelo para Gabriel García Márquez em seu Memória de minhas putas tristes, o qual o colombiano dedica a seu companheiro de Prêmio Nobel.



Tsugumi
Banana Yoshimoto
A japonesa irrequieta de Kitchen, que a consagrou e que está em tradução, adotou como apelido Banana, palavra universal por excelência, como declaração de multiculturalismo e rejeição ao Japão tradicional. Nesta obra, ela nos arrasta para subterrâneos imprevisíveis.



Musashi
Eiji Yoshikawa 

Fez história em nossa editora com cerca de 150.000 exemplares vendidos. Uma grande aposta de 1.800 páginas que acabou dando muito certo. A tradução, trabalho de sete anos de Leiko Gotoda, é memorável e mantém impecavelmente a tensão do enredo: os caminhos e lutas do mais bem-sucedido samurai de todos os tempos, mestre da técnica das duas espadas e jamais derrotado em combate. Na vida real se retirou aos 32 anos numa caverna para terminar sua vida escrevendo.




Irmãs Makioka
Jun'ichiro Tanizaki

A grande obra do grande Tanizaki, talvez meu escritor japonês favorito. Uma pintura ímpar da vida familiar e social no Japão pelo olhar da caçula de quatro irmãs, que não pode se casar antes das mais velhas. O tempo oriental desfila em plenitude literária.




 

Museu do silêncio, O
Yoko Ogawa

Ogawa, a dama insuspeita do contrapé da escrita japonesa, envereda a cada obra por alguma arte” que acaba decompondo: ora a matemática, ora a biologia e o estudo dos insetos e a pedagogia como agora, ou ainda a memória humana como no próximo que estamos preparando. Uma obra sui generis, garanto que se há alguém que justifica a expressão não chove no molhado”, é Yoko Ogawa.





Cadernos da guerra e outros textos
Marguerite Duras 
Um livro que me marcou muito. O relato de quando o companheiro dela, o também escritor Robert Antelme, retorna do campo de concentração é demolidor. E lindo. Afinal, é Marguerite Duras. Muito orgulho de ter editado isso.


 

Virtudes do fracasso, As
Charles Pépin

Um livro muito prático, no sentido de que todos nós temos nossos fracassos — e que temos de nos reerguer. Para nós, editores, isso acontece a cada… encalhe. Mas não foi o caso desse livro, Charles Pépin foi best-seller com este; agora faremos um romance e outro de filosofia dele. Virou estrela dos meios de comunicação — tem programa de TV e virou ator pelas beiradas.

 


Lenda do santo beberrão, A
Joseph Roth

Obra extremamente sensível, um pouco dura, afinal, na vida real Roth morreu bebendo — no Café Tournon em Paris, que ainda existe, perto do Odéon. O lugar dele tem placa e tudo. Quem for lá tomar um trago, é por conta da editora, mande a conta! É sério, faço questão de convidar. Linda filmagem por Marco Bellocchio.




Outro que bebia um pouco demais. Se prejudicou no final. Mas antes disso fez obras maravilhosas, como essa, um marco da literatura “de resistência”. Resistir é possível sempre, basta querer, e um tanto de coragem ajuda, claro. Magistral a transposição aqui do clima reinante na Alemanha sob a ditadura nazista. Advertência aos incautos por aí.

 



Ensaio sobre a jukebox
Peter Handke

Handke mais Handke do que nunca. Como um aparelho de som pode mover tanta coisa na escrita? No fundo, a reflexão sobre o escrever me deslumbrou, e os desvios pelo interior da Espanha são o máximo. Ninguém ganha um Prêmio Nobel à toa. Justificado!

 



A promessa seguido de A pane
Friedrich Dürrenmatt

Dürrenmatt… lembram-se da tão encenada peça Os físicos? É dele! Dürrenmatt desmonta os cânones do romance policial, e ainda assim é de leitura muitíssimo prazerosa. O textoA pane deveria ser leitura obrigatória para todo santo juiz aqui na tupiniquimlândia, seja da Lava Jato ou não.




Canadá
Richard Ford

Ford acabou me ganhando não só pela qualidade literária e sofisticação da capacidade de observação, mas também pela gentileza no trato. Cada e-mail dele é uma pequena obra literária que guardo com muito carinho. Uma trama forte, bate um sentimento de impotência, de cheque-mate, na literatura isso conta muito! Os personagens são memoráveis. Fazendo mais dele, sem dúvida!

 



Aqui de dentro
Sam Shepard

Shepard, o grande ator, aqui como romancista. Mas obviamente autobiográfico… Bem revolvido. Uma provocação e tanto. Nada bem-comportado, viva a literatura! E se não bastasse, prefácio-homenagem de Patti Smith, adorável.




Chamado do poente, O
Gamal Ghitany

Cheio de mistério, a força incontornável do deserto, dos horizontes desconhecidos. Grande escritor egípcio, vasta obra, reverenciou Mahfouz ao me levar pelas ruelas da parte medieval do Cairo. Claro, me mostrou coisas que nenhum turista veria. Um dos pontos altos de minha pequena vida de editor. Justa homenagem à obra e ao homem.
 



Balada do cálamo, A
Atiq Rahimi

Rahimi nos traz toda a carga pessoal dos fundamentos de sua escrita, a fuga, o exílio, a reconstrução da vida, os prazeres de ser cineasta, romancista, desenhista, calígrafo. Ilustrado por ele mesmo, em verbetes e aforismos tão reveladores quanto poéticos. Uma grande pluma que se tornou um grande amigo, e que não perde uma oportunidade de vir ao Brasil. O fã-clube agradece.

 



Na Terra do Cervo Branco
Chen Zhongshi

Todos os livros a gente faz com carinho, afinal nós que os escolhemos. E tem os livros que nos fazem sonhar e nos fazem sentir o que é editar de verdade. É o caso aqui. Aconteceu de tudo na edição deste grande romance-retrato do século XX chinês. Como tela de fundo, uma China ainda tradicional e muito sob o signo de Confúcio, as guerras contra os ocupantes, a Revolução. Em primeiro plano, clãs em luta, personagens dignos de Gabriel García Márquez, de quem Chen Zhongshi se diz grande admirador. E tudo bate. Fascinante, sem medo de dizer que demos tudo nestas 800 e tantas páginas. Para administrar com galhardia qualquer quarentena.

 



Garoto do riquixá, O
Lao She

Desta vez, a China de antes da Revolução. Realismo em carga máxima. Não é para menos. A China é literariamente enorme, nós que sabemos muito pouco ainda, e entrará mais em nosso catálogo. Lao She é um dos imortais por lá, e o protagonista aqui, o “camelo” Xiangzi, nos traz uma Beijing dos anos 1920-30 que não esqueceremos tão cedo.

 


Ilusões perdidas
Honoré de Balzac

Balzac no máximo de sua força narrativa; de longe meu favorito dele, e olha que ele escreveu muito (na verdade até morrer de exaustão). O jovem tipógrafo Lucien de Rubempré vai tentar a vida como jornalista em Paris, e o que descobrirá não vai ser nada menos que o universo. Para nós, do ofício da edição, um monte de diretas e indiretas sobre nossas mazelas, vaidades e conquistas. Também este à prova de qualquer quarentena.
 




Notre-Dame de Paris
Victor Hugo

Quasímodo, este personagem é um dos grandes inventos da literatura, certamente. Victor Hugo não deixaria por menos. A majestosa catedral de Paris já estaria sob ataque antes, aqui pela pluma do “escritor nacional” da República francesa… Demolidor!

 



Germinal
Émile Zola

Depois de Balzac e Victor Hugo, agora Zola, outro dos grandes da França. Germinal é inesquecível em sua alta dramaticidade humana. Um monumento à eterna luta por justiça social e à solidariedade na resistência. Uma descrição impecável também da condição dos trabalhadores nas minas carvoeiras. Um mundo em desaparecimento? Ou voltará tudo?

 



Bouvard e Pécuchet
Gustave Flaubert

Para encerrar o quarteto dos “monstros” literários franceses, completamos com Flaubert e seus dois simpáticos e cômicos personagens, descrentes de tantas coisas, mas eficientes em nos fazer refletir sobre os limites da capacidade humana em inovar. Muito, muito a calhar em tempos de terraplanistas.

 


Divã ocidento-oriental
Johann Wolfgang von Goethe

Goethe em viagem literária de sublimação ao Oriente, na qual homenageia o grande poeta medieval Hafez, mas através dele toda a magnificência da cultura persa. O tradutor Daniel Martineschen ficou anos aperfeiçoando rimas, métrica e todo o mais nessa precursora obra em verso e prosa — Goethe mergulhou tanto nestas mil e uma noites que achou por bem nos fazer viajar duplamente. Quero parabenizar toda a equipe pela linda edição, e torcer para não termos errado em lançar agora em meio a esta inglória pandemia.

 


Não adianta morrer
Francisco Maciel

O carioca Francisco Maciel me cativou desde o início com sua escrita original e altamente lapidada. Uma forma sui generis e inspirada de lidar com as várias podridões da vida de nossos subúrbios. Grande lance, um ritmo endiabrado. Estamos negociando este livro com Alemanha e França; Maciel merece, estou muito contente de tê-lo descoberto.

















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