Paradiso se tornou através dos anos um mito da literatura latino-americana. Edificação máxima do esplendor barroco, fusiona heranças culturais e literárias de vertentes híbridas. Percorre a Grécia antiga, a América criolla, a Europa de Dante, Góngora, Goethe e Voltaire. Foram quase 20 anos para elaborar esse que é o romance referencial do cubano José Lezama Lima, marco de uma radicalização estilística sem concessões.

Ao leitor, portanto, não se trata de uma leitura qualquer, mas uma imersão num mosaico de sinestesias, que transformam Paradiso numa experiência literária assombrosa. Tentar definir a trama do livro como sendo de cunho autobiográfico, por acompanhar o crescimento do asmático personagem José Cemí, da infância à vida adulta, em meio aos dilemas de uma sexualidade que o perturba e ao desenvolvimento de sua vocação poética, seria reducionista e impreciso.

Porque a Lezama Lima pouco importam as prerrogativas da narrativa e do vocabulário convencionais: toda a lógica do mundo, as observações, as descrições, as reflexões pessoais, cedem a uma iconoclastia poética devastadora, tornando nebulosas as fronteiras do que entendemos por “realidade”. O lirismo pessoalíssimo de Lezama Lima reverbera em cada cena, em cada passagem, em cada ponto e vírgula.

A despeito da verborragia poética do escriba cubano, nenhum vocábulo da obra soa fortuito, ao contrário: cada um deles parece ter sido rigorosamente planejado, como a cumprir esta dupla função, estética e transcendental, que acaba por conduzir o leitor a uma inevitável epifania. O livro exerce um sublime e ao mesmo tempo dolorido mergulho no universo das leituras de formação, da amizade e da lealdade cúmplices, da sexualidade em suas exuberâncias mais fantasiosas. O hermetismo do texto só reforça a aura própria das coisas especiais: Paradiso é uma obra ímpar.

 LEIA UM TRECHO 


Livro
Formato 23x16x4cm
ISBN 978-857448-206-4
Páginas 616
Sobre o autor (a) José Lezama Lima talvez forme ao lado de Guillermo Cabrera-Infante e Alejo Carpentier a santíssima trindade da alta literatura da Ilha — ao menos no além-Cuba. Mais evocado em referências do que propriamente lido, Lezama Lima nunca gozou de popularidade em sua terra natal, também pelo fato de Paradiso, seu livro mais notório, ter ficado no ostracismo por anos pelo governo revolucionário, em razão da alta dosagem erótica da trama. Nascido em 19 de dezembro de 1910, em Havana, Lezama Lima foi editor, romancista, ensaísta e, sobretudo, poeta, tendo estreado na literatura com a publicação do longo poema “Muerte de Narciso”, em 1937. Seu estilo peculiar de escrita fora influenciado em especial pelo poeta espanhol Luís de Góngora y Argote, alcançando com Paradiso uma retumbante repercussão, pelo qual chegou a ser chamado de “místico da cultura”, capaz de “tornar visível o invisível”. Outras de suas obras incluem A Expressão Americana (1969) E Las Eras Imaginarias (1971). Lezama Lima morreu em Havana, em 8 de agosto de 1976.
Tradutor Josely Vianna Baptista

Escreva um comentário

Nota: O HTML não é traduzido!
Ruim           Bom