Jacques Lacan (1901-1981) é considerado um dos revolucionários do campo freudiano. Médico de formação, uniu a experiência em psiquiatria – forjada na Enfermaria Especial para alienados da Chefatura de Polícia de Paris, junto ao grande mestre Clérambault – à filosofia, à lingüística, à matemática. Leitor de pensadores como Alexandre Kojève, Georges Bataille, Hegel, Heidegger, Wittgenstein, Ferdinand de Saussure e Lévi-Strauss, entre outros, deu um sentido contemporâneo à teoria e à prática psicanalíticas, influenciando campos do conhecimento para além das fronteiras da psicanálise. Era a década de 1950 e Lacan participava, juntamente com outros intelectuais e artistas, daquele que pode ser considerado um dos momentos de maior efervescência cultural em solo francês desde o caso Dreyfus no século XIX. Seus famosos seminários anuais no Hospital Sainte-Anne e depois na École Normale Supérieure, que chegaram a reunir centenas de pessoas das mais variadas áreas, iniciaram-se com a proposta de uma releitura da obra freudiana, um resgate da palavra do pai da psicanálise à luz de outras estruturas, um projeto audacioso que levou adiante durante 26 anos. De início, nos anos 30 e 40, encontramos um Lacan voltado para a fenomenologia, a filosofia hegeliana e o surrealismo. A década de 1950 marca seu engajamento ao movimento estruturalista, seu encontro com a obra de Lévi-Strauss, cujo resultado está expresso na famosa fórmula “o inconsciente estruturado como uma linguagem” – trata-se, seguramente, do Lacan mais conhecido. Por último, o pesquisador dos nós borromeanos, da topologia, da escrita sintomática de Joyce, o Lacan matemático, enfim. Nos três tempos de sua obra, deixou contribuições inestimáveis para a psicanálise, principalmente no que diz respeito à clínica da psicose e à ética da psicanálise. Abraçou a questão da análise terminável ou interminável levantada por Freud, buscando identificar o ponto de passagem do analisante à analista, e com isso levantou (e ainda levanta) a poeira das instituições psicanalíticas. Preocupou-se com os laços sociais e seus discursos, com os objetos de consumo, com a constituição subjetiva e dos saberes, inclusive o próprio saber psicanalítico. Em tom coloquial, esta obra de Alain Vanier apresenta, portanto, o personagem Lacan e alguns de seus mais importantes conceitos, como os registro do Real, Simbólico e Imaginário, objeto a, significante, Nome-do-Pai, entre outros, elementos que comprovam a vivacidade teórica do psicanalista que Lacan encarnou sem concessão.