SOBRE A OBRA

Publicada originalmente entre 1916 e 1917 no jornal literário BunmeiGuerra de gueixas foi uma obra bastante ousada para a época – desde sua primeira edição em livro, ainda em 1918, até os anos 1960, só circulou a edição “censurada”, em que as passagens tidas como eróticas tiveram de ser removidas. Nada que hoje causasse maior furor, mas as pequenas historietas que compõem a trama central, notadamente os relacionamentos entre as gueixas e seus clientes, carregam de fato muito de uma promiscuidade comum na sociedade japonesa, mas sobre a qual não se falava – ou se escrevia. 

Ambientada em Shinbashi, Tóquio, tido como o bairro da luxúria, acompanhamos a jornada de Komayo, uma gueixa que, depois de se casar, deixou para trás a vida libertina. Mas, por se tornar viúva ainda jovem, acaba retornando ao antigo ofício. Um reencontro ao acaso com um amante do passado irá bagunçar os sentimentos de Komayo, sobretudo porque sua teia de relações afetivas não é pequena, incluindo um velho rico a quem ela abomina, e um jovem ator onnagata – aquele que encarna papéis femininos –, por quem Komayo nutre certa obsessão. Longe de propor uma visão romântica das gueixas – essa figura ao mesmo tempo hipnótica e misteriosa da cultura japonesa que tanto deslumbra o imaginário ocidental –, Nagai Kafu envereda por uma perspectiva bem mais realista, ele que foi um autor notoriamente influenciado pelo naturalismo francês.

A gueixa de Kafu não é meramente a criatura de coque, maquiagem e quimono fadada a ser apenas a companhia submissa para o deleite masculino: é a mulher capaz de amar, sofrer e se ressentir, evocando assim uma falibilidade humana que a faz ainda mais sedutora. Recorrendo a uma série de personagens secundários, entre escritores, atores, criadas e outros tipos, o autor compõe um painel instigante da Tóquio boêmia do início do século XX, reconstituindo com grande vivacidade a engrenagem de costumes e mecanismos das relações sociais de uma época.



SOBRE O AUTOR

Nascido em Tóquio em 1879, o autor recebeu o nome de Nagai Sokichi. Tornou-se célebre com seu nome literário, Kafu. Desde a adolescência interessou-se por literatura e cultura tradicionais japonesa e chinesa, além de apreciar autores franceses como Zola, Baudelaire e Maupassant. Aos dezenove anos já escrevia seus primeiros contos, que seriam publicados a partir de 1900. Em 1903 viaja a Nova Iorque, onde trabalha em um banco japonês. Esse período inspirou o livro Amerika Monogatari [Histórias Americanas], de 1908. Em 1906, por exigência do trabalho, muda-se para Lyon, na França, onde teve contato intenso com a literatura daquele país, interessando-se especialmente pelo simbolismo. Ao retornar ao Japão, em 1908, já é um homem de letras maduro e cosmopolita. O profundo interesse que demonstra pelo mundo das gueixas e prostitutas está sempre refletido em suas histórias. Autor de romances, contos e peças de teatro, manteve intensa produção até sua morte, em 1959.