Literatura japonesa no CCSP: confira como foi o encontro



Na noite de ontem (28/3), no Centro Cultural São Paulo,aconteceu o "Ponto de Encontro: Literatura japonesa contemporânea",organizado pela Fundação Japão São Paulo. O senhor Masaru Susaki, diretor da Fundação, abriu o evento, com uma fala espirituosa (e em português!) sobre o trabalho da Fundação de apoiar iniciativas para o intercâmbio cultural entre Brasil e Japão. Em seguida, a palavra passou para a mesa de convidados,composta por Lica Hashimoto, tradutora literária e professora de língua e cultura japonesa; Rita Kohl, tradutora e pesquisadora; e Angel Bojadsen, diretor editorial da Estação Liberdade, apresentando um panorama da história da editora e de seu trabalho com a literatura japonesa. A mediação da conversa foi feita por Deise Getúlia de Melo.

 

Angel contou que a Estação Liberdade nasceu em 1989*, inicialmente de um selo literário da editora Ática Scipione que depois se tornou independente. O nome se deu tanto pelo fato de a editora ter tido a primeira casa no bairro da Liberdade, historicamente ligado ao fim da escravidão e à colônia nipônica paulistana, quanto pelo momento histórico do país, que caminhava para o fim da ditadura militar. Os primeiros livros da editora incorporavam esse interesse pela cultura japonesa, e logo buscou-se editar livros japoneses. A grande virada veio com MUSASHI, que Angel lembrou que foi fruto de um trabalho de 7 anos da tradutora Leiko Gotoda. A obra se tornou um best-seller, apesar de suas quase 2000 páginas. A partir daí, a editora buscou construir um catálogo robusto de japoneses, começando por autores estabelecidos do século XX e abrindo para contemporâneos e clássicos mais antigos. Angel também salientou a importância de trabalhar títulos de não ficção, história e cultura japonesa.

 

Quem tomou a palavra na sequência foi a professora Lica Hashimoto, que falou um de sua experiência à frente das aulas na Universidade de São Paulo. Ela comentou que de alguns anos para cá, o curso vem mudando.Atualmente, mais de dois terços dos alunos do curso de língua e cultura japonesa não têm ascendência nipônica (até pouco tempo atrás, os nikkeis eram maioria), e, surpreendentemente, a maioria dos que entra tem pouco ou nenhum conhecimento da língua japonesa. Outra mudança é que o interesse pela literatura como uma arte humanística vem aumentando e, portanto, o curso foca mais em questões literárias. A obra de autores como Natsume Soseki, Yasunari KawabataJunichiro Tanizaki, além de seu valor para a história da literatura, também é usada para ensinar um pouco do pensamento filosófico do Japão na era Meiji e no período posterior, de abertura para o ocidente. Lica também explicou que ocurso procura incentivar leituras variadas, para que alunos não fiquem preso sem suas bolhas de interesse, e, principalmente, salientou a importância da literatura como uma companheira para aplacar a angústia de tentar fazer sentido do mundo em que vivemos.



A tradutora Rita Kohl contou ao público presente — mais de uma centena de nipófilos — sobre o que a motivou a estudar japonês: conhecer uma língua que a fizesse pensar de maneira completamente diferente da sua. A vontade de traduzir nasceu de suas leituras e da comparação com os textos originais, procurando entender por que cada texto traduzido resultava de uma maneira. Ao começar a trabalhar com tradução, ela logo percebeu que não existe uma tradução certa e uma errada: "na faculdade,procuramos dar conta de todos os significados possíveis de um texto estrangeiro. Na hora de traduzir, no entanto, você não pode ficar 1 semana trabalhando em uma única frase. O tradutor tem que escolher qual caminho seguir e procurar fazer o seu melhor". Em um momento mais intenso, Rita chegou a dizer que "nenhuma palavra tem tradução" (!), gerando um burburinho entre os presentes. A ideia, no entanto, é de que uma tradução será sempre uma interpretação, a tentativa de construir uma ponte entre conceitos que não serão exatamente equivalentes.


A conversa depois seguiu com perguntas do público, abordando desde alguns assuntos mais delicados da tradução, como a interessante e potencialmente infinita discussão sobre "domesticar" ou"internacionalizar" uma tradução, isto é, qual a medida certa de elementos da língua e da cultura nativas a serem mantidos (a professora Lica defendeu a importância de manter elementos nativos para a difusão de informações sobre a cultura; já Rita comentou sobre uma tendência exagerada de“exotização” da literatura nipônica); até algumas informações importantes sobre a difusão da cultura japonesa no Ocidente e as oportunidades de aproximarmos a cultura brasileira e a cultura japonesa. A professora Lica informou aos presentes que há apenas 750 obras japonesas traduzidas em português (entre todos os países lusófonos). Em língua inglesa, este número chega a 10 mil.

*são 30 anos de Estação Liberdade em 2019! Esperem convites para celebrações em breve.


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