Mulheres atrás das câmeras
Leia abaixo o texto de orelha do nosso lançamento MULHERES ATRÁS DAS CÂMERAS: AS CINEASTAS BRASILEIRAS DE 1930 A 2018, escrito pela crítica de cinema Ana Maria Bahiana.  

Antes que o cinema fosse indústria e entretenimento de massa, ele era uma novidade tecnológica, uma descoberta da transição do século XIX para o século XX. Com raízes tanto na ciência quanto na arte, o cinema intrigava, desafiava, convidava criativos de todas as disciplinas a compreender e utilizar suas possibilidades.
 
As mulheres, em massa, responderam a esse desafio. 

Um olhar rápido sobre os primeiros anos do cinema revela uma eclética multidão de curiosas em explorar as promessas do que viria a ser a sétima arte. Na Europa e nas Américas, mulheres com variados interesses e treinamentos foram muitas vezes as primeiras a testar os limites da novidade. Na França, Alice Guy-Blaché, secretária e datilógrafa da diretoria da Gaumont, dedicou-se a testar as possibilidades das novíssimas câmeras para algo mais que comemorações e registros históricos — depois do trabalho, Guy-Blaché criava, com amigos e parentes, os primeiros filmes narrativos de ficção.

Sim, o primeiro diretor de ficção no cinema foi uma mulher. E ela não estava sozinha. Do Chile, com Gabriela Vega, em 1917, ao México, com Mimi Derba e Cándida Beltrán Rendón, em 1928, mulheres tornaram-se cineastas em sucessivas ondas, criando documentários e filmes narrativos. Nos primeiros anos do que viria a ser Hollywood, atrizes migraram rapidamente para detrás das câmeras — Dorothy Davenport Reid, Mabel Normand, Mary Pickford, Ida Lupino.

A paixão pelo cinema chegou cedo ao Brasil — e a história se repetiu. Carmen Santos, Gilda de Abreu, Cléo de Verberena e tantas mais fazem parte deste episódio essencial da narrativa do audiovisual — um episódio  frequentemente esquecido e negligenciado.
Mulheres atrás das câmeras busca resgatar esta história, preencher esta lacuna, trazer o legado dessas pioneiras até suas descendentes — Tizuka Yamasaki, Tata Amaral,  Tereza Trautman, Ana Carolina, Anna Muylaert, Daniela Thomas, Helena Solberg, Lúcia Murat, Laís Bodanzky, Eliane Caffé, Carla Camurati e tantas, tantas mais. É um mergulho profundo na outra metade da história do cinema no Brasil, que convida a refletir sobre como e por que tantas pioneiras puderam ser tão espetacularmente postas à margem daquilo que elas iniciaram e moldaram, e que estimula a explorar a obra das realizadoras que, hoje, levam adiante essa visão.


Ana Maria Bahiana
Los Angeles, outubro de 2019

 

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