Se um gato-narrador já seria uma opção narrativa ousada na literatura de qualquer autor contemporâneo, que dizer da Alemanha do início do século XIX? Pois é essa a iconoclastia proposta por E.T.A. Hoffmann em Reflexões do gato Murr, obra de grande comicidade e irreverência, em que o bichano evocado no título, metido a erudito e cuja personalidade passa longe da modéstia, dedica-se a produzir a própria biografia com o intuito de legar à posteridade o registro de sua felina e brilhante passagem por esta existência.

Assim, o petulante Murr, em meio a reflexões filosóficas e divagações mundanas, repassa ao leitor os momentos marcantes de sua vida, desde a primeira mão humana que o recolhe para pô-lo diante de uma generosa tigela de leite, até as danações de sua vida adulta, que incluem, por exemplo, a peculiar amizade com o poodle Ponto; o amor malfadado pela beldade bichana Miesmies; e o truculento acerto de contas “a dentadas” com o gatuno pintalgado que a roubou dele.

Murr também critica seus pares “filisteus”, aqueles desprovidos de qualquer erudição – o que não deixa de ser uma ironia de Hoffmann sobre os hábitos burgueses que ele condenava. A originalidade de Reflexões do gato Murr, no entanto, não se resume à narrativa feita pelo gato-autor: como nos adverte o editor da obra, um acidente de edição teria impresso, no mesmo livro, o manuscrito de Murr e uma outra história, a do compositor Johannes Kreisler, originalmente escrita no verso dos papéis que o gato usou como suporte de suas memórias. A abordagem bem-humorada cede, então, à tensão da trama paralela, já que nela acompanhamos uma série de intrigas típicas vivenciadas entre personagens da realeza e subalternos, como amores proibidos, assassinatos e deliciosas conspirações. A mistura improvável de gêneros e a originalidade na forma fazem de Reflexões do gato Murr um livro de inventividade ímpar e frescor cômico atemporal, assinado por um dos mais clássicos autores da história literária alemã.

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Livro
Tradutor Maria Aparecida Barbosa
Formato 21x14x1cm
Páginas 440
Sobre o autor (a) O escritor Ernst Theodor Amadeus Hoffmann (1776-1822) foi sem dúvida o mais criativo dos escritores românticos alemães. Ao substituir seu terceiro prenome, Wilhelm, por Amadeus, presta uma homenagem ao seu ídolo, o músico Amadeus Mozart. Hoffmann tornou-se conhecido no Brasil, sobretudo, através do conto “O Homem-Areia” que foi objeto de estudo no ensaio “O Estranho” (Das Unheimliche) do psicanalista Sigmund Freud. Por isso, seu nome está mais associado ao fantástico, mas essa foi somente uma das vertentes de sua fecunda criação literária que integra narrativas policiais, realistas, cômicas, grotescas. Além de escritor, era caricaturista e, acima de tudo, músico. Escreveu dois romances: Os Elixires do Diaboe Reflexões do Gato Murr, além de 80 contos.
ISBN 978-85-7448-225-5

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