Toda a genialidade de Jun’ichiro Tanizaki

O gigante Jun’ichiro Tanizaki


Membro de uma família de mercadores, Jun'ichirō Tanizaki nasceu em 24 de julho de 1886 no centro de Tóquio, onde viveu e estudou até 1923 quando um forte terramoto e consequente destruição da sua casa, o forçou a se mudar para a região de Kyoto-Osaka, cenário de muitas de suas obras. Tanizaki publicou pela primeira vez em 1910, mas sua reputação só se tornou grandiosa em 1923, reputação que o segue até hoje como um maiores autores da literatura japonesa moderna. 




O universo de Tanizaki é centrado na sensualidade e no erotismo, sendo que infidelidade, fetichismo, tendências sádicas e voyeurismo não coíbem os personagens de realizar seus anseios, bem na tradição budista que desconhece a noção de pecado – Tanizaki jamais viajou ao Ocidente e não era influenciado pelo cristianismo e suas normas morais. Foi o primeiro escritor japonês eleito como membro honorário da American Academy of Arts and Letters. Em 2014, em uma entrevista ao programa Estúdio Univesp, a pesquisadora, professora e tradutora Neide Hissae Nagae, falou sobre os trabalhos do autor japonês Jun'ichiro Tanizaki, principalmente sobre o livro As Irmãs Makioka, publicado pela Estação Liberdade.



Dominação e submissão sempre alimentaram a literatura de Jun’ichiro Tanizaki e não seria diferente com a obra A gata, um homem e duas mulheres, seguido de O cortador de juncos. Publicada originalmente em 1936, Tanizaki eleva à quinta potência o nível de complexidade nos relacionamentos afetivos entre seus personagens.

O romance põe a gata Lily no centro da trama protagonizada pelo casal Shozo e Fukuko, e ainda pela ex mulher do primeiro, Shinako. 
O autor parece recorrer ao felino como metáfora para a falência dos relacionamentos humanos – e nesse sentido a verve do autor é notável. Shozo adora mimar a gata de todas as formas possíveis, o que deixa Fukuko enciumada — fato que já havia se dado também com a ex-esposa. Ciente da possibilidade de que isso volte a se repetir no novo relacionamento do ex-marido, Shinako planta a discórdia ao sugerir à rival Fukuko que lhe devolva a bichana, única “filha” do casamento desfeito. É a gata Lily, portanto, que, à primeira vista, se insinua como ponto de desequilíbrio na normalidade  dos personagens. A intimidade que Shozo dispensa a Lily, como lhe dar de comer diretamente na boca, está longe de se repetir com a futura esposa. É curioso constatar aqui uma iconoclastia tanizakiana: o autor, que com frequência abordou a subserviência da mulher, fragiliza seu personagem masculino, Shozo, mas propondo um protagonismo feminino graças à presença magnética da gata.  
 
A segunda narrativa que compõe a presente edição, O cortador de juncos — publicada originalmente em 1932 —, propõe uma espécie de homenagem ao teatro nô ao estruturar uma “história dentro da história”. Caminhando pelas cercanias do rio Yodo, em Okamoto, um homem cruza por acaso com um desconhecido, com quem trafega em reminiscências. O primeiro conta ao interlocutor a história de seu pai, um homem que, na juventude, viu-se dividido entre duas irmãs – uma história de amor complexa e imprevisível.  
 
Em O cortador de juncos, alusões diretas e indiretas a Genji monogatari [O romance do Genji], que costuma ser apontado como o primeiro romance do mundo (escrito no século XI por Murasaki Shikibu), representam o esforço de Tanizaki em espelhar a estética da era de ouro da literatura clássica nipônica. Daí a opção por trechos longos, com pouca pontuação, como forma de reproduzir aquele peculiar estilo narrativo. Tais elementos, no entanto, não atenuam o virtuosismo da trama em si, muito bem combinada a um importante pano de fundo histórico e à tensão erótica característica do autor. 




 
Considerada a obra-prima de Tanizaki, As irmãs Makioka — publicada originalmente em 1943 —, traça um sutil e complexo perfil da sociedade japonesa durante os anos 1930 e aborda uma série de conflitos entre os valores japoneses e os ocidentais, bem como entre a tradição e a modernidade.  A história, que começa no outono de 1936 e termina em abril de 1941, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, retrata a vida de uma abastada família da região de Kyoto e Osaka, no oeste do país. As irmãs Makioka (Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko) tentam resolver juntas seus problemas familiares e arranjar um casamento para a terceira delas, Yukiko, uma mulher de crenças tradicionais que aos trinta anos ainda não conseguiu se casar. Ao mesmo tempo representante da inércia das relações, a personagem é também um estandarte da tradição. Aliás, uma partícula de seu nome compõe o título original do livro, Sasameyuki — neve fina, a última a cair no inverno.
 
Taeko, a caçula, também tem intenções de se casar, mas, em respeito às convenções sociais japonesas, ela precisa esperar o casamento da mais velha para decidir seu futuro. Taeko é a personagem mais aberta à modernização dos costumes e à cultura ocidental, sofrendo as consequências de seu comportamento e de suas opções. Ela padece de perdas e doenças — estas, aliás, um tema caro a Tanizaki, que faz memoráveis descrições de sintomas, tratamentos e medicamentos da época —, e é marcada pela exclusão familiar. No entanto, embora Taeko seja moderna e autossuficiente, resgata os valores tradicionais na arte e na cultura japonesa antiga: ela dança e faz bonecos. 
 
A questão tradição-modernidade aparece também na “rivalidade” entre a região de Kyoto e Osaka (mais tradicional e ligada aos valores antigos) e Tóquio (mais moderna e ocidentalizada). E também entre a casa central, onde mora a irmã mais velha com seu marido, e a secundária, onde está Sachiko e Teinosuke, a segunda irmã com quem as mais novas preferem viver.

Este romance tem como fonte de inspiração a terceira esposa do autor, a elegante Nezu Matsuko, representada no livro por Sachiko, e suas três irmãs, com quem Tanizaki passou a residir a partir de 1923, quando mudou-se de Tóquio para Ashiya, região de Kyoto-Osaka, devido ao grande terremoto que atingiu a capital. Os outros personagens também se baseiam em amigos, conhecidos e familiares do autor. São reais também as referências de locais, assim como as ligadas à vida artística-cultural. A casa de Ashiya, inclusive, tornou-se ponto de visitação aberto ao público.
 
Os primeiros capítulos deste romance foram publicados originalmente em uma revista em 1943, mas o governo logo censurou a publicação, considerada inadequada para aquele período social e politicamente turbulento. Tanizaki continuou escrevendo e com seus próprios recursos bancou o lançamento de uma pequena edição do primeiro volume da obra, em 1944. Foi somente depois do fim da Segunda Guerra que o segundo e o terceiro volumes de As irmãs Makioka foram lançados, atingindo grande sucesso entre o público e a crítica literária. Sob o mesmo título, a obra teve adaptações para o cinema, sendo a do diretor japonês Kon Ichikawa, de 1983, a mais conhecida.




Diário de um velho loucopublicado pela primeira vez em 1962, foi o último livro escrito por Jun’ichiro Tanizaki. Entre o criativo e rebelde patriarca de 77 anos da família Utsugi e sua nora Satsuko estabelece-se em meio a luzes e sombras um jogo sutil de poder envolvendo, de um lado, o ancião que se empenha em burlar uma vida regrada por remédios, médicos e hospitais e, do outro, a ex-dança­rina de casas noturnas, mulher bela e licen­ciosa, plena de vida, que faz uso de seus talentos naturais para fascinar e controlar o sogro, manipulando-o em prol de interesses pessoais.

A idade do protagonista, ao invés de coibir seus instintos, liberta-os. Com a consciência da aproximação da morte e na posição de quem não tem muito a perder, o velho senhor Utsugi rompe por completo com as convenções sociais e entrega-se de corpo e alma à exaltação de seus prazeres hedonistas. A explicação para tais impulsos, em nada exclusivos da juventude e da meia idade, vem do próprio narrador: “Penso, antes, que o fenômeno tem a ver com a sexualidade de um velho impotente — pois alguma sexualidade existe, mesmo num velho impotente.”

Estas páginas de um dos grandes mestres da escrita japonesa ficarão para sempre como um libelo da se­xua­­lidade na velhice demonstrando que, se a velhice é cruel quanto à submissão ao desejo, ela só é sinônimo de senilidade para os conformistas. O que certamente não é o caso de Tanizaki.












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