Uma carta de Sayaka Murata
Assim como Keiko Furukura, protagonista de QUERIDA KONBINI, Sayaka Murata também trabalhou em uma loja de conveniência. O trabalho a ajudava a pagar as contas enquanto ela era uma aspirante a escritora. Ela continuou trabalhando na konbini por vários e vários anos (mesmo que em meio período e apenas alguns dias da semana), coisa que a ajudava a manter uma rotina e a observar pessoas comuns em seu dia a dia.
Após o romance receber o Prêmio Akutagawa, um dos mais prestigiosos do país, ela chegou inclusive a dizer que, se seu gerente não se importasse, ela gostaria de continuar no cargo, declaração que foi amplamente noticiada e repercutida no país.

Leia abaixo uma carta de amor de Sayaka Murata para a loja onde trabalhou.



Querida Loja de Conveniência
Tradução de Rita Kohl


Querida Loja de Conveniência,

Permita que eu dispense os cumprimentos formais. Já faz dezessete anos que te conheci, mas é a primeira vez que te escrevo uma carta assim.

Quando nos conhecemos eu tinha dezoito anos. Naquela época, eu te achava muito assustadora. Sentia que você pertencia ao mundo dos adultos e pensava que logo seria enxotada do seu lado. Ficava muito nervosa quando ia te encontrar e sempre levava no bolso um caderninho, no qual anotava meticulosamente cada detalhe que identificava dos seus gestos e manias.

Acho que nem eu nem você saberíamos dizer quando é que nossa relação deixou de ser assim e nos tornamos amantes, não é? Se eu precisasse escolher algum momento, seria aquela primeira noite que passamos juntas, às duas horas da madrugada... Naquele dia, outra pessoa precisou faltar de última hora e me imploraram para que eu continuasse dentro de você até mais tarde. Eu, que sempre te encontrava de dia ou ao entardecer, senti meu coração bater mais forte ao respirar o perfume da noite de verão que preenchia o seu interior.

Quando estava indo embora, de repente eu quis ver você ficar sem jeito, então perguntei: “Você acha que seres humanos e lojas de conveniência podem fazer sexo?”

Achei que você ficaria corada ou constrangida, mas você respondeu sem se abalar:

“Que pergunta! Pois já não estamos fazendo? Você entra dentro de mim todos os dias.”

Talvez a gente tenha começado a namorar na hora em que você disse, séria, essas palavras.

Depois disso, eu comecei a me arrumar para ir te ver. Não era mais um compromisso de trabalho, era um encontro romântico. Você também passou a me receber um pouco mais vaidosa, com as prateleiras de revistas organizadas e os espelhos brilhando.

Pensando direito, por essa lógica você também estaria fazendo sexo com o senhor que trabalha no turno da noite, e com o casal de gerentes, e com as centenas de clientes que entram e saem da loja todos os dias. Mas você diz, como se fosse óbvio: “Imagina, você é a única com quem já fiz isso!” Então acho que, para você, deve ter alguma diferença.

Deve ter sido uns três anos depois que nos conhecemos. Me contaram, de repente, que você iria morrer dali a um mês.

Fiquei tão surpresa que perdi a fala. Nunca imaginei que lojas de conveniência pudessem morrer depois de apenas três anos.

Mas você morreu mesmo. Nos dois últimos dias antes disso, todas as coisas no seu interior ficaram por metade do preço e uma multidão de pessoas te invadiu para comprar tudo o que podia. Assistindo àquilo, eu pensei que nunca mais ia te ver.

Fiquei muito surpresa quando o gerente me contou que você renasceria em outro lugar, a quinze minutos de bicicleta de onde vivera antes. Era a primeira vez que eu namorava uma loja de conveniência, e não sabia da sua natureza de morrer e renascer várias vezes desse jeito.

Você renasceu e nós nos apaixonamos novamente. Depois disso eu tive um caso com uns restaurantes de fast-food, você morreu de novo, várias coisas aconteceram. Na terceira vez que você morreu, eu já estava acostumada. E até hoje, passados dezessete anos de despedidas e reencontros, continuo ao seu lado.

Me perguntam toda hora: “Por que você namora uma loja de conveniência? Não acha ruim não ser uma pessoa?” “Não está cansada, depois de tanto tempo?”. Também tem quem diga que não é um namoro sério, que deve ser só uma justificativa para eu conseguir material para escrever. Eu não me incomodo, já estou acostumada. Mas outro dia, quando estávamos juntas e eu comentei isso de brincadeira, você pareceu meio triste. Então eu disse: “Me desculpa por ter te contado! Quer que eu vá matar a pessoa que me falou isso?”. Falei meio de piada, meio de verdade. “Matar as pessoas não é muito legal. Porque, diferente de mim, as pessoas não voltam depois de morrer”, você respondeu, séria.

Aliás, é raro você deixar seus sentimentos transparecerem no rosto. Não sorri quando eu faço alguma brincadeira, nem se abala ou fica vermelha quando eu me aproximo de repente com demonstrações de afeto. Eu achava que, mesmo sem eu dizer, você sabia por que é que eu gosto de você. Mas outro dia, no meio de uma discussão interminável quando falamos pela centésima vez em nos separar, até você falou a mesma coisa: “Eu não entendo por que você me namora...”

Fiquei chocada. E foi por isso que resolvi te escrever. Porque quero que você me entenda.

Se eu fosse listar todas as coisas que gosto em você, poderia escrever cem páginas e ainda não seria o bastante. Então vou ser breve e dar apenas um motivo.
O principal motivo pelo qual te amo é que você fez de mim um ser humano.

Todo mundo fala que você não é gente, só que até te conhecer, eu é que não era gente. Ou, no mínimo, eu era um ser humano que não se saía muito bem como ser humano. Estando ao seu lado eu me tornei, pela primeira vez, humana.

Você me deu a passagem do tempo, com manhã e tarde e noite, e você me presenteou com estranhos sapatos para caminhar pelo mundo real. Para mim, você foi mágica. Se não fosse por você, acho que eu continuaria vivendo sem sequer perceber que existe no mundo esse momento chamado “manhã”.

Você foi o único “normal” imutável na minha vida. Por isso, todos os meus sentimentos humanos pertencem a você.

Quem sabe a gente acabe mesmo se separando, agora que estou te contando sobre esses meus sentimentos tão pesados. Porque, apesar de o amor ter me transformado nesse monstro chamado ser humano, você continua sendo, eternamente, uma loja de conveniência. Talvez o meu amor tenha crescido demais e seja penoso para você.

Às vezes eu penso como seria te perder. Talvez, sem você, eu esqueça novamente como ser uma pessoa. Tenho certo medo de ser assim tão dependente.

Mas deixe-me ficar ao seu lado só mais um pouco. Você tem uns cantos meio largados; passa o dia inteiro fazendo uma barulheira irritante — ding-dong, ding-dong; diz que é um prédio e não pode ir pra lugar nenhum então sempre temos que nos encontrar no mesmo lugar; as comidas que você me serve dizendo que são caseiras estão cheias de aditivos; de vez em quando resolve toda animada arranjar uma máquina de café ou coisa assim, “olha só essa novidade!”, e me dá o maior trabalho... E além do mais, é verdade que você deixa o senhor do turno da madrugada e o gerente e todo mundo entrar no seu corpo como querem, e eu fico desconfiada se isso não é traição. Enfim, acho que você é cheia de defeitos. Mas vai ver meu amor é uma doença grave, porque para mim esses defeitos é que são seu charme. Então, acho que é sua obrigação deixar que eu fique ao seu lado até sarar.

Amanhã de manhã, vou te encontrar mais uma vez. Ultimamente caí na rotina e ando sempre com a mesma calça jeans, mas amanhã vou colocar um vestido novinho. Então, trate de me esperar bem arrumada e limpe até dentro das geladeiras de serviço.

Aliás, a gente nunca se beijou, né? Acho que amanhã vai ser a primeira vez.

Saudações,
Sayaka Murata

Dezembro de 2014

Comentários

Escreva um comentário