Indicações para o Nobel de Literatura
Todo mês de outubro é mês de Nobel de Literatura. Além de decidir as pagas dos apostadores e matar a ansiedade dos palpiteiros, o anúncio do prêmio esquenta o mercado editorial e vai formando o corpo artístico-político dos “Prêmios Nobel”, instituição que tem autores dos mais diversos, alguns tremendamente populares, outros solenemente esquecidos. Alguns meses depois disso, por volta de dezembro ou janeiro, a Academia Sueca faz outro anúncio, um que já não movimenta o mercado, mas que mexe com a curiosidade de quem se interessa pela arqueologia do cânone literário: a secretíssima “lista de indicados” do Nobel, liberada apenas 50 anos após a entrega de cada prêmio.

 
Neste início de 2020, portanto, ficamos sabendo quem foram os autores e autoras que estiveram no páreo em 1969, quando o prêmio foi para o dramaturgo irlandês Samuel Beckett. As indicações são feitas por membros da Academia Sueca, professores universitários de literatura, ganhadores do Nobel de Literatura e líderes de associações de escritores. Chama a atenção que dos 103 indicados apenas 4 eram mulheres (a romancista alemã Anna Seghers, a filósofa Simone de Beauvoir, a precursora do nouveau roman Nathalie Sarraute e a poeta búlgara Elizaveta Bagryana —em mais de um século de Nobel de Literatura são apenas 15 autoras premiadas, quase metade delas nos últimos 20 anos).

 
Entre os autores asiáticos elencados nesse ano, algo curioso acontece. Yukio Mishima e Jun’ichiro Tanizaki, indicados ao longo da década de 1960, já não aparecem mais. Isso provavelmente se deve ao fato de que em 1968, Yasunari Kawabata havia levado o prêmio (com uma ajudinha do próprio Mishima, como se pode acompanhar em KAWABATA-MISHIMA CORRESPONDÊNCIA 1945-1970). Como a disputa entre a trinca havia animado o mundo literário na década passada, é de se imaginar que então desistiram de indicar Tanizaki e Mishima, uma vez que Kawabata havia levado todas as fichas da mesa.

 
Ainda assim, na lista de 1969, aparece solitário um escritor japonês, este nunca antes indicado: Yasushi Inoue. As duas obras do autor publicadas pela Estação Liberdade demonstram sua versatilidade e habilidade. O FUZIL DE CAÇA é uma pequena joia, um conto epistolar que narra um caso de amor de maneira tocante e surpreendente. Já O CASTELO DE YODO é um romance histórico que recria banquetes e batalhas do Japão feudal para contar a história de Chacha, que vai de dama da corte a senhora de guerra, uma figura icônica da história japonesa.

 
Inoue começou tardiamente na ficção. Sua primeira obra publicada foi justamente O FUZIL DE CAÇA, em 1949, aos 42 anos. Apesar de ser uma estreia, especialistas em literatura japonesa não hesitam em chamá-la de obra-prima, assim como Inoue não tardou a ser chamado de mestre. Geralmente, no mesmo parágrafo, o especialista em questão irá lamentar que Inoue não é tão celebrado internacionalmente quando deveria. O autor se tornou muito querido pelos leitores japoneses por criar obras de impacto emocional e que ao mesmo tempo eram rigorosamente pesquisadas e carregadas de detalhes históricos, com temas que iam da China antiga à vida de escritor no Japão do pós-Segunda Guerra.

 
Sua prosa também se apresentava um pouco mais otimista do que o corrente na literatura desse momento tenso da história japonesa, e seu estilo era mais econômico e limpo do que o de seus compatriotas da “tríade Nobel” – talvez por conta de sua longa carreira como jornalista, que precedeu a de ficcionista. Assim como Tanizaki, Mishima e Kawabata, Inoue também demonstrava uma compreensão aguda da psicologia e da alma humana. Mas a substância de fascínio no mundo ficcional de Yasushi Inoue é justamente o nível de detalhe e cuidado nas reproduções de épocas e costumes diversos, em uma prosa construída com empatia e generosidade, mas sem nunca ser fácil, superficial ou enfadonha. Sua nominação para o Nobel é um indício de que os literatos europeus estavam de olho na qualidade da arte de Inoue .

 
Ao longo de sua carreira, Inoue escreveu dezenas de romances e centenas de contos e faleceu em 1991.

 
Com informações de:  https://bookriot.com/2020/01/16/4-women-authors-nominated-for-the-1969-nobel/ e http://authorscalendar.info/inoue.htm
A lista de indicados está online em: https://www.svenskaakademien.se/sites/default/files/forslag_1969.pdf

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